
Avisaste que havia uma surpresa. Que irias soltar a alma, enganar a consciência e deixar o corpo à solta. Corpo libertino, libertando perfumes de sexo. Corpo finalmente libertado de moralismos que se acumularam anos e anos nas gavetas duma educação que coleccionaste dentro de ti. Avisaste que chegavas e não chegavas. Que eras tu e não eras, apresentando uma dualidade de menina inocente e mulher sabida. Avisaste do teu cabelo “marron” que logo imaginei beijando os teus ombros nus, excitados pelas ondas que trazias num caminhar de tacões e botas altas, pretas, com cheiro a couro. Senti-o logo quando o soletraste pousadamente em lábios vermelhos, quase “marron”. Cheiro a couro, daquele que nos assalta os sentidos e nos tortura a alma, quando desenhado, colado até aos joelhos de umas pernas longas, que apetecem percorrer. Meias pretas, transparentes, marcadas por pétalas espalhadas em rendilhados de pele, provocando os sentidos que recuperavam ainda de um coma provocado pela tua voz em aviso antecipado. Ligas pretas que te agarravam. Corpete apertado, que te transporta num negro estonteante sustendo teus seios brancos de Inverno. Sim, tu avisaste que trazias tudo, carregavas fetiches que estavam arrumados, empoeirados, perfumados com cheiros intensos de vontades. Avisaste do chicote, tiras de couro, com cheiro a couro, complementando os fetiches que tinhas em ti para soltar. O cabo que usarias como brinquedo, satisfazendo-te, em viagens repetidas, cadenciadas, dentro de ti. Avisaste que o trazias, decorando o teu fetiche, compondo o negro das botas e com tiras enroladas em pulseira sensual. Avisaste que chegavas sem avisar e te sentarias no sofá de couro, em provocação para eu te ver. Pernas com botas e meias, tudo negro, pousadas nos braços do cadeirão que te acolhia envergonhado. Pernas lindas, afastadas, em prolongamento bi-direccional do sexo que te desejo. E eu ali olhando-te, transportado magicamente para os fetiches teus. Ouvindo-te gemer e sorrir, sorrir e gemer, enquanto as tiras desenroladas do chicote deslizavam, couro com couro, no sofá daquele quarto, em viagens repetidas, cadenciadas como as que transportavas, sorrindo, para dentro de ti. Tu avisaste…